PÊNFIGO

Antônio VALENTIM da Costa Magalhães (*)

 

15 “Fogo! Fogo!...” – esbraveja o inquisidor, fremente,

Torvo olhar na expressão implacável e crua.

17  Coleia a chama enorme e, trágica, flutua

A subir e bailar qual rúbida serpente.

 

- “Piedade, meu Deus!...” – Choram vítimas, rente

Ao fogo que lhes rompe a carne viva e nua.

Estorcem-se de horror, ante os gritos da rua,

22  E somem-se, a bradar: - “Inocente! Inocente!...”

 

O tempo voa e abate o verdugo do povo...

24  Ordena a Grande Lei que ele nasça de novo

Para que o lume vivo o experimente e encangue;

 

E o terrível algoz na prova a que se aferra,

Aos singultos de dor, arrasta sobre a Terra

28  O corpo torturado em brasas cor de sangue!...

 

 

 

 

     (*) Romancista, poeta, crítico literário, teatrólogo, contista e jornalista. Bacharel pela Faculdade de Direito de S. Paulo, Valentim Magalhães advogou durante anos no Ri de Janeiro, onde foi professor de Português e, depois, de Pedagogia na Escola Normal. Diretor-fundador do celébre jornal literário – A Semana – e membro fundador da Academia Brasileira de Letras, o suave poeta de Rimário exerceu poderosa influência nos meios culturais do Pais. Colaborou em diversos diários importantes do Rio e de S. Paulo. Segundo Péricles Eugênio da Silva Ramos (Pan., III, pág. 29), foi VM um dos poetas mais representativos da poesia socialista. ( Rio de Janeiro, Gb, 16 de Janeiro de 1859 – Rio de Janeiro, Gb, 17 de Maio de 1903.)

 

     BIBLIOGRAFIA: Cantos e lutas; Rimário; Quadros e Contos; Horas Alegres; etc.

 

   

 15. Epizeuxe.

   17. Note-se o efeito deste “enjambement”. Como que chegamos a ver a rúbida serpente a subir e a bailar, coleante e trágica.

   22. Ricochete: “... – “ Inocente! Inocente!...”

   24. Grande Lei. Refere-se o poeta à Lei de Causa e Efeito.

 

Livro: “Antologia dos Imortais” - Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira